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A
guerra de Bush e seus pressupostos religiosos
A
opinião pública que é contrária
à invasão anglo-americana do Iraque, no calor
das discussões e diante da indignação
mundial, expressa as causas do conflito no Iraque por um suposto
estado de loucura do presidente Bush, como se ele fosse uma
versão anacrônica de um fascista dentro da maior
democracia do mundo. Esta opinião é perfeitamente
compreensível ao se considerar sua postura arrogante
e agressiva. É sedutora a idéia que seu devaneio
bélico se deva talvez a uma personalidade perturbada,
a complexo de inferioridade, à falta de carisma. Seria
um louco que conduz seu país a um caminho de destruição
de espaços diplomáticos, de relações
bilaterais e da legitimidade da liderança da maior
potência econômica do mundo.
Na mídia especializada, no entanto, as causas da guerra
são apresentadas de forma mais técnica, indicando
motivos políticos e sobretudo econômicos para
a origem do conflito. Não há muitos analistas
que discordem que os EUA estariam interessados no controle
das reservas de petróleo iraquiano, usando a acusação
da existência das armas de destruição
em massa e a ditadura de Saddam Hussein apenas como um segundo,
e ainda não justificado, motivo para uma ação
militar de tal porte.
Nossa pergunta aqui não é pelos motivos que
conduziram os EUA e a Inglaterra à guerra, mas sim
a busca por explicações sobre o fato de a grande
maioria dos americanos apoiar a guerra. Estariam todos loucos?
São agressores em potencial? O que é que torna
esta guerra aceitável para milhões de cidadãos
da maior democracia do mundo? Qual o pressuposto cultural
que torna compreensível que eles apóiem a invasão
de um país distante, cuja relação direta
com os atentados terroristas de 11 de setembro não
estão comprovadas? Partindo do princípio que
o homem e a mulher comum, da rua, nos EUA, não são
necessariamente mais violentos ou propícios a atos
agressivos do que nós (igualmente uma sociedade violenta!),
como entender que eles apóiem, ainda que silenciosamente,
esta guerra que já está custando milhares de
vidas, inclusive de civis? O que torna tudo isto plausível
em suas mentes, incluindo aí a pouco privilegiada de
George W. Bush? Creio que as respostas podem ser encontradas
no mundo da religião.
Já foi citada em diversos momentos a filiação
religiosa de George W. Bush. Ele é membro de uma igreja
Metodista. Mas não nos consta que os metodistas em
qualquer lugar do mundo tenham se posicionado oficialmente
a favor da guerra. Pelo contrário, um fato constrangedor
ao presidente americano foi que seu Bispo manifestou-se publicamente
contra a guerra. Não é aí - na afiliação
religiosa direta - que devemos buscar o sistema simbólico
que torna compreensível a postura e o discurso de Bush.
Como filho do protestantismo do sul dos EUA, Bush, os metodistas,
assim como presbiterianos, congregacionais, batistas e tantos
outros, estão inseridos num universo de influência
de um protestantismo fundamentalista. Neste caso, não
se trata apenas de uma igreja que se pode freqüentar
por um tempo e depois se desligar, mas de uma estrutura de
pensamento que determina a ideologia religiosa de milhões
de americanos.
O fundamentalismo protestante é um fenômeno que
surgiu no final do século IXX, no sul dos EUA. Ele
originou-se entre moradores da zona rural que começavam
a se mudar para as cidades e que, em contato com o mundo urbano
e com a modernidade, buscavam inserir-se nela, ao mesmo tempo
que preservavam e reconstruíam valores tradicionais.
Estes protestantes sentiam a necessidade de um sistema de
verdades que lhes tornasse o mundo transparente, compreensível
e sem necessidade das complexas mediações filosóficas
ou teológicas do velho continente. Os ensinos do cristianismo
e, principalmente, os relatos e ensinos bíblicos foram
desta forma transformados em fórmulas doutrinárias
"científicas", seguras, que podiam ser apreendidas
pelo cidadão comum e confirmado pelo senso comum. Esta
epistemologia foi aplicada com mais ênfase nas profecias
bíblicas, em especial as do Apocalipse, que eram entendidas
como um roteiro de previsões das coisas que aconteceriam
no mundo. Se a Bíblia diz que cataclismos acontecerão
nos finais dos tempos, pode-se encaixar estes fatos na seqüência
dos fatos históricos. Qualquer um seria capaz disto.
A história e o texto bíblico, assim interpretados,
passam a ter uma relação de espelho. A profecia
bíblica espelha a história em enigmas e alegorias
perfeitamente compreensíveis. Cabe apenas decifrar
e reconhecer os acontecimentos nela previstos.
Os fundamentalistas norte-americanos criam, por exemplo, e
ao contrário dos teólogos liberais, que o reino
de mil anos seria antecedido pela vinda de Cristo, que arrebataria
os justos consigo para o céu. A princípio trata-se
apenas de um detalhe de interpretação sem importância.
Mas ele expressa o pessimismo fundamentalista com a história.
Se os justos são retirados do mundo antes do reino
de mil anos de justiça e felicidade, este reino perde
toda a sua importância. Não há como colaborar
e construir junto com Deus este novo mundo. Se, por um lado,
a participação humana no milênio é
inócua, por outro, o enfrentamento das batalhas escatológicas
é inevitável. Ou sejam, de duas tradições
importantes da apocalíptica, apenas aquela que se refere
às batalhas escatológicas retém importância.
Agora chegamos a um núcleo da mitologia fundamentalista
que acreditamos ser subjacente ao imaginário de muitos
dos norte-americanos que apóiam a guerra no Golfo -
incluindo o presidente Bush: a necessidade das guerras para
extermínio de inimigos e a purificação
do mundo por meio delas.
Segundo a historiadora Karen Amstrong -especialista na história
do fundamentalismo - a Europa do final do século IXX
esperava pela deflagração de guerras, expressando
o pessimismo decorrente das crises nacionais e da deteriorização
das classes baixas na Europa industrial. Já nos EUA
estas fantasias de autodestruição assumiram
uma roupagem religiosa. As profecias bíblicas, como
por exemplo, as pragas apocalípticas, lidas como um
guia da história, ganharam atualidade. Estas expectativas,
no entanto, são cíclicas, renovam-se e transferem-se
para novos contextos históricos.
Apesar do mundo dos fundamentalistas protestantes pretender
ser científico, dotado de razão e lógica,
ele revive estruturas míticas muito arcaicas, como
as oposições antitéticas entre forças
do bem e forças do mal. Afinal o mundo jaz no maligno
é regido por forças satânicas e ameaçadoras
e como tais devem ser combatidas pelos que pertencem a Deus.
Este dualismo quase maniqueísta se expressa de diferentes
formas no sistema de pensamento deste movimento. Ele explica
também a forma agressiva como os fundamentas lidaram
com seus adversários, expulsando alguns, processando,
excomungando, excluindo. Trata-se de um movimento que em posturas
dualistas e segregadoras define sua própria identidade
social e religiosa. Nós não somos o mal que
o outro representa!
Esta postura de beligerância fez com que em diferentes
momentos na história norte-americana do século
XX os fundamentalistas tenham se manifestado contrários
a interações culturais e sociais com judeus,
negros, muçulmanos e mesmo com cristãos católicos
e protestantes ecumênicos.
No âmbito das relações políticas
internacionais o fundamentalismo expressou este dualismo ao
opor os EUA a seus inimigos reais ou imaginários, como
os países comunistas (em especial a URSS e Cuba) e,
mais recentemente, contra os países árabes e
a cultura islâmica.
Esta postura dualista e nacionalista é reforçada
pela crença muito divulgada entre estes protestantes
no "destino manifesto dos EUA". Segundo estes grupos,
os EUA foram escolhidos por Deus para manter e propagar o
seu evangelho, seja por meio de evangelização
ostensiva, uma presença política e militar "manutenção
da liberdade" ou combate às potências hostis
a Deus e que constituem supostos redutos para a aparição
do anticristo.
Anticristo? Sim. Sua identificação nas instituições
e potências políticas presentes é uma
das fixações fundamentalistas. Há que
identificar seu império e derrotá-lo.
Mas não bastasse a crença no papel de supremacia
dos EUA na história mundial contra os povos ameaçadores,
este conjunto de crenças também tem influências
negativas para dentro da vida política norte-americana.
Os fundamentalistas sempre viram o papel do estado secular,
das liberdades cidadãs e da democracia como ameaçadoras
do cristianismo. Os direitos garantidos em constituição
aos cidadãos americanos eram vistos como incentivadores
da pluralidade cultural e religiosa que só teria a
função de ameaçar as verdadeiras tradições
americanas e evangélicas. Estas pessoas não
só agridem os de fora, acabam por tornar-se vítimas
da sociedade que idealizam.
Devemos ressaltar que Bush, os senadores norte-americanos,
seus militares e grande parte da opinião pública
podem não ser ativistas religiosos, mas partilham de
referenciais do imaginário fundamentalista, de uma
ideologia religiosa que, pensando o mundo dualisticamente,
fundamenta a guerra.
Se há conflitos de interesses no mundo da política
internacional, da corrida armamentista, dos interesses em
torno do petróleo, há também uma grande
disputa entre paradigmas culturais pluralistas e o paradigma
que pretende fazer prevalecer o ocidente cristão pautado
na cultura tradicional norte-americana.
Desconstruir e questionar a fundamentação deste
sistema de pensamento que legitimam a guerra e o ódio
que destrói povos e culturas, encontrando alternativas,
é uma colaboração que a comunidade acadêmica
pode dar em prol da paz e de uma sociedade plural.
Paulo
Augusto de Souza Nogueira - Pós-graduação
em
Ciências da Religião e Faculdade de Teologia
UMESP.
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