Adriana Clementino
O mundo mudou, a sociedade global é outra. Outras, também, sao as tecnologias do conhecimento. Por que a escola nao muda?
Adriana Clementino
A Internet como espaço de integraçao tecnológica
As últimas décadas foram palcos de acontecimentos que provocaram mudanças significativas na sociedade e na forma como as pessoas vivem. Alteraçoes da geopolítica global; o surgimento de novas relaçoes de trabalho; a Internet, entre outros tantos fatores colaboraram para que as pessoas alterassem suas maneiras de aprender, fazer, comunicar-se e conviver socialmente.
Os avanços tecnológicos ocorridos de meados do século XX em diante, provocaram, aos poucos, transformaçoes em todos os setores da sociedade que, de forma silenciosa, deram início a revoluçao tecnológica (Castells), ou revoluçao da informaçao (Friedman).
Segundo Castells, trata-se de "uma revoluçao tecnológica concentrada nas tecnologias da informaçao [que] começou a remodelar a base material da sociedade em ritmo acelerado" (1999, p.39). Mas, ainda segundo o autor, esse pensamento nao tem a intençao de sugerir que as transformaçoes tecnológicas sejam responsáveis por novas formas e processos sociais. Para ele, existe uma interaçao dialética entre a sociedade e a tecnologia, uma vez que "a tecnologia nao determina a sociedade: incorpora-a. Mas a sociedade também nao determina a inovaçao tecnológica: utiliza-a". (ibid., p.62, notas)
Para Friedman,
cada componente dessa revoluçao da informaçao foi conseqüencia, por sua vez, de diferentes processos: a rede telefônica foi fruto do desejo das pessoas de conversarem a longas distâncias; o fax surgiu como uma forma de transmitir comunicaçoes por escrito através da rede telefônica; o PC disseminou-se graças as suas aplicaçoes mais cruciais: planilhas e processamento de texto; e o Windows foi desenvolvido em resposta a necessidade de viabilizar a utilizaçao e programaçao disso tudo pelas massas. (2005, p.66)
A criaçao, disseminaçao e estabelecimento do Windows como principal sistema operacional dos microcomputadores do mundo todo, fez com que as áreas de produçao de novos softwares trabalhassem cada vez mais para criar novos produtos que realizassem inúmeras tarefas diferentes e inéditas. No entanto, essa era apenas uma das fases da revoluçao em andamento.
Com o surgimento da Internet, presenciamos o mundo "passar de uma plataforma de computaçao baseada em PC para outra baseada na Internet" (ibid., p.70). Situaçoes que até entao eram consideradas ficçao -interaçao via computador com pessoas fisicamente distantes; envio e recebimento de documentos num prazo recorde; dentre outras coisas -tornaram-se realidade para aqueles que tinham acesso a um computador conectado a um modem.
As inovaçoes causadas pelo grande desenvolvimento das áreas das telecomunicaçoes e da informática e o advento da Internet revolucionaram as formas de comunicaçao e interaçao entre as pessoas. A possibilidade de acesso irrestrito e permanente aos mais variados tipos de informaçoes fascinou a todos. O crescimento exponencial da Internet - em número de usuários1 e em informaçoes disponíveis - possibilitou que vários setores da sociedade se expandissem em novas formas e condiçoes de acesso.
No momento inicial dessa nova fase, os principais aplicativos foram o e-mail e os browsers. Estes últimos foram criados por vários cientistas e academicos para "navegar" pela Internet a partir da criaçao da WWW (World Wide Web)2. Estava criado o ciberespaço, um "espaço de comunicaçao aberto pela interconexao mundial dos computadores" (Lévy, 1999, p.92).
Com os usuários interligados, novas necessidades (e idéias) foram surgindo. Trocar e-mails e ter acesso as informaçoes disponíveis na rede já nao eram suficientes. Inovaçoes tecnológicas tornavam possíveis as trocas de mensagens instantâneas em tempo real, a visualizaçao de pessoas por meio de webcams; comprar e vender pela Internet (e-commerce); fazer download de músicas ou ouvi-las na própria web; enviar e receber fotos, vídeos, etc.; analisar a radiografia de um paciente distante; ter acesso ao sistema da empresa de qualquer lugar e a qualquer hora; estudar por cursos online; etc. Enfim, uma infinidade de opçoes e possibilidades surgiu tendo a Internet como o espaço de integraçao das novas e velhas tecnologias, que Castells resume da seguinte forma:
Uma transformaçao tecnológica de dimensoes históricas está ocorrendo com a integraçao de vários modos de comunicaçao em uma rede interativa. Ou, em outras palavras, a formaçao de um hipertexto e uma metalinguagem que, pela primeira vez na história, integra no mesmo sistema as modalidades escrita, oral e audiovisual da comunicaçao humana. (1999, p.414)
Essa tecnologia [a Internet] é mais que uma tecnologia. É um meio de comunicaçao, de interaçao e de organizaçao social. [...] [Ela] é -e será ainda mais -o meio de comunicaçao e de relaçao essencial sobre o qual se baseia uma nova forma de sociedade que nós já vivemos -aquela que eu chamo de sociedade em rede. (id., 2004, p.255-6)
As possibilidades geradas pela Internet repercutiram em todas as áreas do conhecimento e nos vários setores do mercado. Alguns setores de forma mais contida e conservadora, outros de forma entusiasta e quase inconseqüente -de um extremo ao outro -, mas todos estao buscando se adaptar (infra-estrutura e pessoas capacitadas) as mudanças.
As facilidades que a web trouxe para a vida dos cidadaos geraram novas necessidades e expectativas. Afinal, "as redes, mais do que uma interligaçao entre computadores, sao articulaçoes gigantescas entre pessoas conectadas com os mais diferenciados objetivos". (Kenski, 2007b)
A Internet na Educaçao
A inserçao da Internet na área da Educaçao, mais precisamente, no processo de ensino-aprendizagem, pode dar-se de inúmeras formas: como recurso auxiliar de pesquisas extra-aula; meio de comunicaçao entre professor/aluno fora do espaço temporal da aula (troca de e-mails, por exemplo); recurso utilizado em sala de aula (debate sobre um determinado site, por exemplo); como meio de entrega de material ao aluno ou ao professor; como forma de continuidade da aula fora dos limites de tempo e espaço determinados (fórum de debate); utilizando-se de ambientes virtuais de aprendizagem (AVAs) para cursos semipresenciais ou inteiramente a distância; etc. As possibilidades sao muitas e muitos também sao os novos espaços de aprender.
Para Pierre Lévy, filósofo frances que pesquisa o uso das tecnologias na sociedade atual, qualquer reflexao sobre o futuro dos sistemas de educaçao e de formaçao na cibercultura deve ser fundada em uma análise prévia da mutaçao contemporânea da relaçao com o saber. E sobre isto o autor faz tres constataçoes:
Primeira: a velocidade de surgimento e de renovaçao dos saberes e savoir-faire; Segunda: a nova natureza do trabalho. Trabalhar quer dizer, cada vez mais, aprender, transmitir saberes e produzir conhecimentos; e Terceira: o ciberespaço suporta tecnologias intelectuais que amplificam, exteriorizam e modificam numerosas funçoes cognitivas humanas que favorecem novas formas de acesso a informaçao e novos estilos de raciocínio e de conhecimento. (1999, p.157)
Uma das características desse mundo global e conectado é a produçao incessante de inovaçoes e o avanço dos conhecimentos.
Na atualidade, para se obter informaçao sobre um determinado assunto, basta acessar um bom site de busca, digitar uma ou mais palavras-chaves e um grande número de links aparece na tela do computador. Ao movimento de alguns cliques -e algum tempo disponível é possível ter acesso a uma enorme gama de informaçao sobre qualquer assunto que se queira conhecer.
Para a Educaçao, isso significa que o processo de ensino-aprendizagem deve ser realizado com uma postura diferente da pedagogia da transmissao, pois
na medida em que os conhecimentos sao traduzíveis em linguagem informática, e enquanto o professor tradicional é assimilável a uma memória, a didática pode ser confiada a máquinas articulando as memórias clássicas (bibliotecas, etc.) bem como os bancos de dados a terminais inteligentes colocados a disposiçao dos estudantes. (Lyotard, 1998, p.92)
A possibilidade de acesso via Internet a bibliotecas, museus, centros de pesquisa, revistas, jornais, etc. -lugares estes que tanto alunos quanto professor podem aprender -pede uma nova dinâmica de aula. Uma dinâmica que considere também o aluno como sujeito do ato educativo. Uma dinâmica em que professor e alunos troquem experiencias vividas com e pelas tecnologias no contexto de interesse de ambos.
Contudo, para se chegar a esse tipo de dinâmica de interaçao que incentive a construçao do conhecimento, é preciso adotar uma postura crítica em relaçao ao uso das novas tecnologias. A utilizaçao de qualquer aparato tecnológico em um curso nao pressupoe mudanças pedagógicas. As novas tecnologias podem servir tanto para inovar como para reforçar posturas, comportamentos e práticas educativas. Confirmando tal pensamento, Orozco afirma que o "tecnicismo por si só nao garante uma melhor educaçao. [...] se a oferta educativa, ao se modernizar com a introduçao das novas tecnologias, se alarga e até melhora, a aprendizagem, no entanto, continua uma dúvida". (2002, p. 65)
Nesse sentido, tomando como base a utilizaçao de diversos tipos de tecnologias de informaçao de comunicaçao no processo ensino-aprendizagem, Laurillard apresenta os papéis do professor e do aluno em quatro diferentes tipos de ensino:
No primeiro tipo, o professor se apresenta como o "contador de histórias" e pode ser substituído por um vídeo, um programa de rádio ou uma teleconferencia, por exemplo. No segundo tipo, o professor assume o papel de negociador e o ensino se dá por meio da "discussao" do conteúdo aprendido em outros tipos de interaçoes fora da sala de aula (a leitura de um texto ou de um livro, a observaçao ou visita a determinado lugar, assistir a um filme, por exemplo).
Uma terceira possibilidade exclui inclusive a açao direta do professor. Nesse caso, é o aluno que assume o papel de "pesquisador" e interage com o conhecimento por meio dos mais diferenciados recursos multimidiáticos. O aluno aprende "por descoberta" e ao professor cabe a interaçao final com o aluno, para "ordenar" os conhecimentos apreendidos pelos alunos nos outros espaços do saber. A quarta e última modalidade de ensino é a que apresenta professores e alunos como "colaboradores", utilizando os recursos multimidiáticos em conjunto para realizarem buscas e trocas de informaçoes, criando um novo espaço significativo de ensino-aprendizagem em que ambos (professor e aluno) aprendem. (apud Kenski, 2003, p. 47)
A diferença didática entre os quatro tipos de ensino propostos, "nao está no uso ou nao-uso das novas tecnologias, mas na compreensao das suas possibilidades. Mais ainda, na compreensao da lógica que permeia a movimentaçao entre os saberes no atual estágio da sociedade tecnológica" (Kenski, 2003, p. 49).
Afirmar que a escola nao mudou, nao é verdade. Além de novas políticas implantadas como, por exemplo, a exigencia da formaçao em nível superior para todo e qualquer professor, nao há dúvida de que as tecnologias de comunicaçao e informaçao trouxeram mudanças para a educaçao que antes contava apenas com a lousa, o giz, o livro didático e a voz do professor.
Hoje o espaço de ensino-aprendizagem pode contar com recursos como vídeos, programas educativos da TV, softwares educacionais, sites diversos com informaçoes variadas, etc. Entretanto, para que as tecnologias disponíveis possam trazer alteraçoes positivas no processo educativo, elas precisam ser compreendidas e incorporadas pedagogicamente. Isso significa que "nao basta usar a televisao ou o computador, é preciso saber usar de forma pedagogicamente correta a tecnologia escolhida." (2007, p.46)
Como seres historicamente situados, nós, professores, precisamos ter a consciencia do momento no qual vivemos e das necessidades da sociedade atual para proporcionarmos formaçao a nossos alunos, e nao apenas capacitaçao.
Professora Doutora Adriana Clementino
Bibliografia
CASTELLS, Manuel. A Sociedade em Rede. Traduçao por Roneide Venâncio Majer. 7. ed. rev. amp.. Sao Paulo: Paz e Terra, 1999.
CLEMENTINO, Adriana. Didática intercomunicativa em cursos online. 2008. Tese (doutorado em Educaçao) Universidade de Sao Paulo.
FRIEDMAN, Thomas. O mundo é plano: Uma breve história do século XXI. Traduçao por Cristiana Serra e S. Duarte. Rio de Janeiro: Objetiva, 2005. 471p.
KENSKI, Vani. Educaçao e Tecnologias: O novo ritmo da informaçao. Campinas, SP: Papirus, 2007.
_____. Tecnologias e ensino presencial e a distância. Campinas, SP: Papirus, 2003.
LÉVY, Pierre. Cibercultura. Traduçao por Carlos Irineu da Costa. Rio de Janeiro: Editora 34, 1999.
LYOTARD, Jean-François. O ensino e sua legitimaçao pelo desempenho. In: _____. A condiçao pós-moderna. Traduçao por Ricardo Correa Barbosa. 5. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1998. p.88-98.
OROZCO, Guilhermo G. Comunicaçao, educaçao e novas tecnologias: tríade do século XXI. In: Comunicaçao e Educaçao, Sao Paulo, n. 23, p. 57-70, jan-abr. 2002.